Artigo

30/09/2004

O Político, o Eleitor e o Bem Comum! * André Luis Felício

'A única vantagem do poder: poder fazer o bem mais do que qualquer outro'. Baltasar Gracián

Ao contrário do que muitos de nós pensamos, Charles de Gaulle estava certo quando sentenciou que a política é um assunto demasiadamente sério para se deixar tão somente nas mãos dos políticos.
Torna-se vítima de sua própria desídia aquele que busca escusas para não se envolver no processo eleitoral da escolha, concedendo com seu voto procuração para um medíocre qualquer representa-lo por quatro anos apenas em função da popularidade ou simpatia do velhaco. Alguns, agindo pior, trocam o voto por efêmero benefício material que não deve durar um terço do mandato que conferiu ao seu "bem feitor".
Como conseqüência lógica da escolha inconseqüente vem o desapontamento e reclames que se estendem por todo o intervalo entre as eleições. Destarte o ataque contra a denominada crise de representação impregna todo o cenário político com fortes doses de incredulidade, apatia e descrédito. Alguns, mais afoitos, cobram posturas rígidas dos poderes constituídos como que se providências pontuais derivadas da ação do Ministério Público, resolvessem os problemas advindos da má representatividade política. Ledo engano. Para piorar constatamos, ano após ano, que sob tal enfoque, nenhuma perspectiva de mudança se avista. Cada vez mais pessoas confundem política com astúcia. Não se reflete para escolher mas com impetuosa celeridade passa-se a cobrar e praguejar. Mais do que exigir, nós eleitores, devemos antes de tudo selecionar melhor nossos representantes. Escolher políticos honestos, capazes de desgastar-se pelas necessidades do seu povo e que inspirem seus projetos e ações não nos seus próprios interesses (ou dos grupos que representam), mas sim no bem comum.
Para um povo cujos projetos de vida foram substituídos por estratégias de sobrevivência, esse "bem comum" não se restringe apenas a obras e serviços, mas sim um conjunto de condições sociais que permita a todos se realizar como pessoas dignas.
Sim... devemos exigir políticos vocacionados a nos defender e que não se furte a se posicionar, lutar e denunciar quando preciso. A busca pelo cumprimento do dever no cargo representativo com esmero, probidade e paixão deve ser incessante.
Ao declararmos nossa opinião pelo voto não podemos esquecer que poucos políticos conseguem tomar decisões transcendentes em prol do bem comum sem se importar no proveito político que dela há de advir... ou não.
Lembremos que o verdadeiro político consegue, durante os quatro anos de mandato, enfrentar cara-a-cara o cidadão que lhe investiu no cargo para lhe escutar, apoiar ou prestar-lhe contas e mais, que a sua dedicação seja fruto de um relativo alívio de outras obrigações morais próximas, imediatas e urgentes. Isso porque a política séria, antes de tudo, é um sacerdócio onde o desprendimento do próprio "eu" apresenta-se como ingrediente imprescindível na exteriorização da sobriedade e exemplaridade social. De nada adianta preparo sem abnegação à causa.
Em minhas aulas prego que os universitários não podem, depois de formados, se contentarem em consumir egoisticamente os benefícios do saber adquirido nos anos de aplicação, na simples busca de uma melhor colocação no mercado de trabalho ou sociedade. Lembro que cabe a eles transformar o mundo em que vivemos em algo melhor, objetivo que se torna possível quando se emprega todo o seu recurso pessoal na construção de uma sociedade mais justa. Guardada as devidas proporções, seria este o ideal que deveria mover a vontade do político comprometido com o bem comum.
Falamos aqui de homens e mulheres movidos por uma verdadeira obrigação moral e ética, empreendedores que não devem nada a ninguém, pessoas que não planejem sobreviver com o dinheiro público e que se dispõem a empregar em prol do próximo, toda a sua preparação e experiência de vida.
A posição do político na estrutura de poder depende da sua capacidade de manobra e combate para desenhar novas instituições políticas no sentido que, no choque de interesses individuais prevaleça o bem comum. Isso não é fácil... nem mesmo para os mais experientes. Com a "obrigação" de cuidar de seus interesses próprios e agradar a todos (seu partido político, o setor que representa, seus amigos), o bem comum perde em prioridade e importância. Quando isso ocorre a sociedade se desanima e o descrédito leva à perda de legitimidade da própria política e seus protagonistas. Pior: assusta e afasta as novas gerações.
Nunca cobrei de um aluno intimidade com as sutilezas do mundo político ou das manobras eleitoreiras, porém advirto que a sina daquele que se coloca em posição de defesa em relação à política e políticos é justamente ser dirigido pelos que dela participam e gostam. Trocar a sensatez da escolha pelo impulso não pensado é fechar os olhos para as mazelas administrativas e aceitar passivamente a desigualdade social. É deixar de perceber que, quando o bem comum está em jogo uma indolência geral predomina, mas quando tratamos de interesses individuais ou setoriais, a indiferença e descaso sucumbem à luta pela melhor fatia.
No próximo dia 03 de outubro devemos lembrar que o verdadeiro desafio contemporâneo é encontrar uma fórmula de bem comum que concilie o consenso democrático, as liberdades individuais e a dignidade humana, e isso depende de nossa escolha agora... não do reclame posterior. Se de fato queremos forjar nosso próprio destino, passemos a replicar os desmandos políticos com uma escolha sensata, valorando a defesa do argumento correto ao invés da eficiente venda de ilusões.

* André Luis Felício é formado pela Faculdade de Direito de Presidente Prudente, professor no Curso de Direito da Toledo/PP, Promotor de Justiça Eleitoral e membro da 'Transparência Brasil', entidade ligada a 'Transparency International', única organização mundial dedicada exclusivamente a reduzir a corrupção.

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